Me chamo Vivian, tenho 30 anos, moro com meu namorado e um cachorro atentado chamado Theodoro — também conhecido como aquecedor de pés, provador oficial de fiapos de linha e especialista em atrapalhar fotos de encomendas com perfeição profissional.
Cresci cercada de gente criativa — meu lado paterno sempre teve o dom da arte pulsando nas veias, mesmo que, ao longo dos anos, muitos tenham guardado isso numa gaveta pra caber na pressa do dia a dia e nas exigências do “mundo adulto”. Eu, pequena, nunca fui muito dos brinquedos em si... gostava mesmo era das embalagens. O presente ideal? Uma daquelas pastas cheias de materiais de desenho: giz de cera, canetinha, aquarela, lápis de cor, e aquela tesourinha de plástico que não cortava absolutamente nada. Ganhei dezenas. E usei todas.
Meu tio — estilista, artista e cúmplice de infância — morava com a gente na época. Com ele tive meu primeiro acesso a tecidos e me apaixonei por costurar à mão minhas próprias criações. Passei um bom tempo viciada em fuxico (literalmente). Eu era “a que inventava moda”, segundo meu bisavô, que dizia que só tinha ideia de jerico. E tinha mesmo: me joguei em encadernação manual, fazia origami modular porque quis criar o Banguela de Como Treinar o Seu Dragão, desenhava meus próprios papercrafts, construía maquetes sem nenhuma necessidade prática — só porque queria ver pronto.
Não foi exatamente uma surpresa quando resolvi fazer Arquitetura. A surpresa veio mesmo quando larguei tudo depois de um ano. Voltei pro Rio, vivi um sabático meio involuntário, e fui parar no Direito (a vida, né?). Trabalhei na escola de corte e costura do meu tio e, por insistência de uma amiga, comecei a fazer capas de Vade Mecum. Ela apareceu um dia com duas encomendas prontas — e eu sem saber nem usar a máquina. Pedi ajuda pro meu tio, improvisei com as máquinas da escola, até que ganhei minha primeira companheira de guerra: uma Singer amarelada pelo tempo, que resistiu firme a pedidos de estojos, bolsas, mochilas e tudo o que aparecesse.
Abri loja no Elo7, criei perfil no Instagram, participei de feiras, aprendi apanhando. Até que um dia recebi a primeira encomenda de enxoval de bebê sem fazer ideia de como ia dar conta daquilo com a Singer... mas ela foi valente. Aguentou firme. Só partiu dessa pra melhor depois de uma semana nas mãos da minha irmã mais nova (RiP Lourdes, você fez o que pôde 💛).
Com o tempo, o ateliê (na época chamado Arte em Tecido) ficou um pouco de lado. Faculdade, estágio, prazos, boletos. A criação foi ficando pra depois. Mas durante a pandemia, como quem busca ar pra respirar, reencontrei o bordado. Comecei sem grandes pretensões e, aos poucos, ele foi ocupando um espaço essencial — de expressão, de afeto, de reencontro comigo mesma. Hoje, o bordado é o coração do ateliê, mas não o único. Daqui também saem ideias de papel, costuras de memória e o Coelho de linho, que nasceu como presente pra minha sobrinha e agora se prepara pra ganhar o mundo.
Sou bacharel em Direito, artista em tempo integral, concurseira em horário comercial e criadora sempre. Porque se tem uma coisa que eu não consigo deixar de fazer é imaginar — e transformar essa imaginação em algo que se possa tocar, vestir, abraçar ou pendurar na parede.